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11/01/2012, 18:21h | Notícias
Um rei indigente
Por Cecília Olliveira e Silvana Bahia
Gambá. Pra quem freqüenta bailes funk pelo Rio de Janeiro afora, este nome diz muito. Gualter Rocha, o Gambá, era também conhecido como “Rei do Passinho”, estilo de dança que mistura de frevo a samba, passando por gestos comuns do dia a dia até o famoso moon walk, de Michael Jackson.
Famoso na internet, onde publicava vídeos com os passos que criava, Gambá lançava moda pelos bailes onde passava. Sua fama ficou ainda maior ao se destacar no concurso Batalha do Passinho, realizado em setembro passado. Morador da favela Vila Joanisa, na Ilha do Governador, ele tinha 22 anos e fazia biscates como gesseiro. Gambá passou o reveillon no Baile do Mandela, em Manguinhos, zona norte do Rio de Janeiro. Depois disso, nunca mais foi visto.
Na sexta-feira, dia 6, Gambá foi enterrado como indigente. De acordo com o Instituto Médico legal, ele foi espancado até a morte. Tinha marcas nos braços, costas e cabeça, mas seu irmão afirma que durante o reconhecimento do corpo, viu uma marca de tiro em sua testa. Há versões divergentes ainda sobre quem o matou.
“Perdemos um jovem. Perdemos um jovem de periferia, negro, e que além de tudo, foi pioneiro em apontar pra uma identidade pós-masculina”, diz, saudoso, Julio Ludemir, um dos organizadores do concurso Batalha do Passinho, e que Gambá, carinhosamente, chamava de pai. Para homenageá-lo, Julio organiza para domingo um flash mob no Arpoador.
PRVL: O que o Gambá representou pro movimento funk?
Julio Ludemir: Em primeiro lugar, perdemos um jovem. Perder um jovem é sempre perder um jovem. Uma das hipóteses da morte dele, da qual eu discordo, mas é uma hipótese, é de que ele teria sido assassinado pelo gerente da boca por ter dançado com a mulher dele. Porque a mulher dele teria se interessado pelo Gambá. Ou seja, ele era um cara que por intermédio de uma sexualidade invertida se tornava altamente sedutor para as mulheres. Eu sou de uma geração em que ar nordestino da favela tinha músculos, potência e a última coisa que ele tinha era cintura. Não é a toa que a grande questão masculina é problema de coluna. Os homens são duros, não requebram. Aquela provocação dele, aquele jogo de cintura, uma provocação, de uma estética praticamente gay, era sedutora para as mulheres.
PRVL: O Gambá era diferente, inovador. Como era sua representatividade?
JL: Ele tinha uma relação com roupa, som, estilo, que, por exemplo, as mães da favela onde ele morava davam dinheiro pra que ele fosse ao shopping comprar roupas iguais as que ele usava para os filhos delas. Ele se tornou uma referência estética para estas crianças disputando o imaginário delas com o tráfico de drogas. As roupas que ele usava, não eram de marcas tradicionais, o tênis não era da Nike. Ele dava uma sofisticada neste estilo, sempre com uma cintura mais, uma camisa larga.
PRVL: Como é isso de o Gambá ser “pós-masculino”?
JL: Essa pós-masculinidade estava em todos os detalhes dele, desde o modo como cortava cabelo, o modo como ele gesticulava, como ele dançava, como ele atraía as mulheres. Ele era sedutor. Além de tudo ele era um dançarino espetacular. Ele conseguia fazer todos os mixes que o passinho faz, mas acrescentava não apenas esta coisa do humor, como também um descompromisso com a masculinidade, que é uma coisa muito funkeira. Os Tigrões dançam requebrando, mas eles são machos dançando. Toda esta dança do funk é uma dança viril. A turma do passinho faz mixagens com frevo, com balé clássico, mas nenhum deles deixa de ser o macho tradicional da favela. O Gambá apontava nesta direção. Ele radicalizava uma coisa que eu chamo de metrofavela. Os meninos da favela são, hoje em dia, de uma extrema vaidade, ainda masculina. Eles fazem a sobrancelha, mas não perdem a masculinidade. Ele não precisava dizer “eu sou macho”.
PRVL: Como era o Gualter Rocha?
JL: Ele se apropriava de toda e qualquer estética. Sem preconceitos. O carisma dele… Não era a toa que todo mundo se apaixonava por ele. Muitos têm qualidades de grandes dançarinos, mas ele seria uma grande estrela de primeiríssima grandeza nos próximos 10 anos. E a gente perdeu isso. Perdemos esta história, porque ele ia dialogar com tudo. Nós perdemos o Gambá.
PRVL: E sobre sua história?
JL: Ele me chamava de pai. Ele não foi criado pelos pais, foi criado pelo irmão mais velho, que embora apenas três anos mais velho, era o pai dele. Isso porque a mãe dele, que é uma mulata maravilhosa, como a Alcione, que canta como a Alcione, e é uma cozinheira de mão cheia, sempre trabalhou fora e não tinha tempo pra cuidar dele. Ela cozinhava pra família da Cláudia Raia, já cozinhou pro presidente Lula e pro governador Sérgio Cabral. Ela também dança funk e tem uma voz maravilhosa, mas que não pode cuidar deles, olhar por eles, porque vivia na casa das madames.
PRVL: E o apelido?
JL: Na casa do Gambá não tinha chuveiro elétrico. Ele tinha medo de tomar banho frio e na van que ele trabalhava como trocador desde os 16 anos, o pessoal dizia que ele fedia muito, como um gambá. Mas é engraçado que depois ele cria toda uma estética física, totalmente diferente disso. Ao invés de ser um menino descuidado, ele é bastante vaidoso, ao ponto de se tornar uma referência estética dentro da favela, a ponto de disputar a o imaginário da estética com o tráfico. Os meninos da favela não queriam mais usar o tênis que viam no pé do traficante e sim o tênis que viam no pé do Gambá. Ele era extremamente afetivo. Ele cativava as crianças em torno dele, mas era um menino muito tímido, na dele.
PRVL: Como foi sua participação na Batalha do Passinho?
JL: Quando ele vai pra batalha do passinho, ele começa a conversar comigo ainda pelo Orkut e ele dizia: mas eu danço diferente… eu não danço exatamente o passinho. Ele sempre lidou com aquela diferença, sabendo que aquilo provocava rejeição. E ele de fato chegou a ser estigmatizado pela turma dos Fantásticos [um grupo que dança Passinho]. Ele chegou a ser expulso da comunidade [do Orkut]. No dia da Batalha do Passinho, os meninos comemoraram o momento em que ele foi derrotado. Era a comemoração da igualdade do “macho da favela”, que dançava como Os Fantásticos. No fundo ele era um grande solitário, muito tímido, muito na dele. Apesar disso era um grande articulador na internet. Não é a toa que os posts dele eram muito acessados. Porque ele trabalhava de modo a fazer a arte dele conhecida e provocava comentários das pessoas. Ele estava sempre dialogando.
PRVL: O que o movimento funk, que está passando por ressignificação, perdeu?
JL: Ele já virou uma lenda. Ele é o Tim Lopes do funk, que vai ser falado daqui a 30 anos. Graças a ele o funk vai ganhar uma visibilidade diferente da que tem ate hoje. O que é um baile funk? O lugar da dança. Tudo o que passa pelo passinho recoloca o funk no lugar dele. As pessoas vão pro baile pelo prazer de dançar, mais do que pelo de cantar. E o passinho coloca isso no centro das coisas. Ele vai ter seus seguidores e seus imitadores. Ele tem uma marca registrada. Quando alguém dançar requebrando daquele jeito, as pessoas vão dizer: “Era o Gambá que dançava assim!”. É um estilo único, inconfundível. Ele criou uma nova fenda pro funk, pra masculinidade dentro da favela. O macho dentro da favela é redesenhado. Não tem mais a dicotomia de “ou você é gay ou você é macho”. Perdemos isso tudo.
Conheça o Gambá:





















